Não se preocupe: eu não vou ficar discorrendo sobre a solidão romântica como se ela fosse uma tese de doutorado nem dizer que você precisa se amar para nunca se sentir sozinha (se o Colin Farrell te amasse também não seria nada mal, não é?). Da mesma forma, jamais direi que a falta que você sente do amor de um homem pode ser suprida pelo amor de (ou a) Deus, seus amigos ou seus animais de estimação. Por quê? Porque isso seria a mesma coisa que afirmar "quando você tiver fome, tome um banho": são necessidades diferentes!
Eu tenho náuseas quando alguém me diz, "Ora, por que você está triste? Você tem uma filha linda!". Sim, eu tenho uma filha linda que amo profundamente - e o que isso tem a ver com a dor de levar um fora? Posso chorar ou estou proibida pela patrulha do politicamente correto? Será que certos autores de livros de auto-ajuda vão me fuzilar num paredão por eu afirmar que não podemos substituir uma necessidade por outra?
A pílula da felicidade que eles não cansam de nos vender não passa de um placebo. A necessidade de algo que transcenda a matéria não pode ser substituída por uma ida ao shopping (e vice-versa) da mesma forma que o fato de alguém, como eu, ter uma filha linda, não substitui a dor que se sente ao ter o coração partido em duzentos e vinte e cinco mil pedaços. Usando português claro: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Algumas pessoas apontam o trabalho voluntário como remédio para a solidão romântica. Não é. O voluntariado preenche a necessidade que temos de doação pessoal. Recomendo vivamente a manutenção dessa experiência riquíssima que abre horizontes e cria luminosas teias de simpatia. No entanto, repito, isso não substitui o roçar sedutor da barba mal-feita do homem que você deseja. Da mesma forma que o roçar sedutor da barba mal-feita do homem que você deseja não substitui sua necessidade de doação pessoal. Vamos ao mantra do dia? Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Só existe uma coisa que pode aliviar a solidão romântica: um romance. Só existe uma coisa que pode aliviar a falta que sua família faz: entrar em contato com ela. Só existe uma coisa que alivia a vontade de ter um animalzinho: adotar um. Cada necessidade no seu devido lugar, com o seu respectivo alívio. O resto é pílula da felicidade vendida por pessoas que se sentem tão sozinhas quanto eu e você - mas que, cá entre nós, têm muito mais dinheiro na conta bancária do que eu e você.
Stella Florence
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domingo, 26 de junho de 2011
Nada passa.
Onze da noite. Toca o telefone. É uma amiga, arrasada depois de um encontro que deveria ter sido bom.
- O que aconteceu?
- Ele parecia uma pedra de gelo, Stella. E ainda me disse: 'Você ficaria bonita mais magra'. Está doendo tanto...
- Ah, querida, não fica assim: você é linda! E vai superar esse babaca, você sabe que vai passar. Depois de uma hora desligamos. Vesti meias de lã. Tomei um copo de chá. Devolvi os livros para a estante. Guardei a roupa passada. Fiquei assim, indo de um canto para outro sem saber exatamente o que me atormentava. Então, a ficha caiu.
É mentira. A maior mentira que nos contaram - e que nós, piamente, acreditamos - é essa, a de que tudo passa. Nada passa. Passa coisa nenhuma.
A gente aprende a viver com as escaras, aprende a colocar ungüentos nos talhos fundos, conhece outras pessoas que são como bálsamos sobre as nossas feridas, mas elas, as sanguinolentas, as danadas, as malsãs, elas não passam. Uma mulher é uma chaga sempre aberta. Um homem é uma ferida sempre exposta. Nada passa.
Sentimentos? Eles se transformam em outros sentimentos, mas não passam. As pessoas que você amou, nunca te causarão indiferença (indiferença, o oposto do amor), sua única certeza é que você sempre vai sentir algo quando as encontrar - algo bom ou ruim, muito bom ou muito ruim. As pessoas que te menosprezaram, te usaram ou simplesmente te rejeitaram, continuam, cada qual com sua adaga, perfurando seu amor-próprio, dia após dia, umas mais, outras menos.
Somos todos, homens e mulheres, mestres no fingimento, na dissimulação, no recalque, mas a verdade, meus caros e minhas caras, a verdade é que nada passa. Por isso você vê uma mulher histérica ao pegar uma cebola podre no supermercado, por isso você vê o homem agindo como um primata no trânsito, por isso seu chefe estoura sem razão, por isso você teve uma crise de choro durante aquele filme, por isso as pessoas têm chiliques inexplicáveis: porque nada passa e nós precisamos de válvulas de escape.
Um colega da oitava série, chamado Fernando, olhou para mim em novembro de 82, e disse: 'Nossa, como você é gorda'. A ferida continua aberta.
Peguei um namorado transando com outra na área de serviço. Eu não disse nada, apenas dei marcha ré ouvindo o eco dos seus beijos pelos azulejos sem cor. A ferida continua aberta.
Dias atrás - exatamente dezessete de setembro -, eu, pela primeira vez em trinta e oito anos de vida, consegui gozar transando com um homem. Fiquei radiante: eu nunca havia alcançado o orgasmo durante a penetração, nem sabia o que era isso! Além do mais, ele me pareceu uma pessoa absolutamente adorável, do tipo que eu gostaria de encontrar muitas outras vezes. Mas ele não me procurou - ou escreveu - nem mesmo para dizer 'não'. Não é uma palavra bonita, mais bonita do que silêncio. A ferida continua aberta.
Fica sempre um pouco de tudo, escreveu Drummond, às vezes um botão, às vezes um rato. Se você me vir tendo um chilique ao pegar uma cebola podre no supermercado, já sabe o que é: são as cócegas malditas dos meus malditos ratos. Porque nada, nada passa.
Stella Florence
- O que aconteceu?
- Ele parecia uma pedra de gelo, Stella. E ainda me disse: 'Você ficaria bonita mais magra'. Está doendo tanto...
- Ah, querida, não fica assim: você é linda! E vai superar esse babaca, você sabe que vai passar. Depois de uma hora desligamos. Vesti meias de lã. Tomei um copo de chá. Devolvi os livros para a estante. Guardei a roupa passada. Fiquei assim, indo de um canto para outro sem saber exatamente o que me atormentava. Então, a ficha caiu.
É mentira. A maior mentira que nos contaram - e que nós, piamente, acreditamos - é essa, a de que tudo passa. Nada passa. Passa coisa nenhuma.
A gente aprende a viver com as escaras, aprende a colocar ungüentos nos talhos fundos, conhece outras pessoas que são como bálsamos sobre as nossas feridas, mas elas, as sanguinolentas, as danadas, as malsãs, elas não passam. Uma mulher é uma chaga sempre aberta. Um homem é uma ferida sempre exposta. Nada passa.
Sentimentos? Eles se transformam em outros sentimentos, mas não passam. As pessoas que você amou, nunca te causarão indiferença (indiferença, o oposto do amor), sua única certeza é que você sempre vai sentir algo quando as encontrar - algo bom ou ruim, muito bom ou muito ruim. As pessoas que te menosprezaram, te usaram ou simplesmente te rejeitaram, continuam, cada qual com sua adaga, perfurando seu amor-próprio, dia após dia, umas mais, outras menos.
Somos todos, homens e mulheres, mestres no fingimento, na dissimulação, no recalque, mas a verdade, meus caros e minhas caras, a verdade é que nada passa. Por isso você vê uma mulher histérica ao pegar uma cebola podre no supermercado, por isso você vê o homem agindo como um primata no trânsito, por isso seu chefe estoura sem razão, por isso você teve uma crise de choro durante aquele filme, por isso as pessoas têm chiliques inexplicáveis: porque nada passa e nós precisamos de válvulas de escape.
Um colega da oitava série, chamado Fernando, olhou para mim em novembro de 82, e disse: 'Nossa, como você é gorda'. A ferida continua aberta.
Peguei um namorado transando com outra na área de serviço. Eu não disse nada, apenas dei marcha ré ouvindo o eco dos seus beijos pelos azulejos sem cor. A ferida continua aberta.
Dias atrás - exatamente dezessete de setembro -, eu, pela primeira vez em trinta e oito anos de vida, consegui gozar transando com um homem. Fiquei radiante: eu nunca havia alcançado o orgasmo durante a penetração, nem sabia o que era isso! Além do mais, ele me pareceu uma pessoa absolutamente adorável, do tipo que eu gostaria de encontrar muitas outras vezes. Mas ele não me procurou - ou escreveu - nem mesmo para dizer 'não'. Não é uma palavra bonita, mais bonita do que silêncio. A ferida continua aberta.
Fica sempre um pouco de tudo, escreveu Drummond, às vezes um botão, às vezes um rato. Se você me vir tendo um chilique ao pegar uma cebola podre no supermercado, já sabe o que é: são as cócegas malditas dos meus malditos ratos. Porque nada, nada passa.
Stella Florence
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